Imagem: Divulgação

Cabelo é identidade. Por meio dos fios – em suas diversas naturezas e texturas –, culturas se afirmam e costumes são construídos e passados de geração para geração. O mesmo acontece com diferentes estilos de penteados, que distinguem sociedades e refletem momentos históricos.

Mas o que os cabelos têm a ver com a saúde da pele? Tudo. Afinal é do couro cabeludo que partem as madeixas. Por isso, quando se fala em cabelos saudáveis é preciso lembrar dos cuidados necessários com a pele que cobre nosso crânio – e tem características (e doenças) específicas.

Entre os problemas mais comuns que podem comprometer a saúde do couro cabeludo, é possível listar a dermatite seborreica (ligada ao surgimento de um fungo), a caspa (ou dermatite capitis, que é uma apresentação da dermatite seborreica), a alopecia (termo médico geral usado para designar a perda de cabelo, com diferentes manifestações) e o câncer de pele (não particular dessa região, mas que não a exclui).

Dermatite seborreica

Inflamação da pele que causa vermelhidão e escamação (e que, além do couro cabeludo, também pode ocorrer ao redor das sobrancelhas, nos cantos do nariz, atrás e dentro das orelhas e no colo), a dermatite seborreica é uma doença crônica e intermitente – ou seja, os sintomas vão e voltam. Pouco se sabe sobre o que a causa, mas alguns fatores relacionados são a genética e as alterações hormonais (estímulo dos hormônios androgênicos) além de ser desencadeada, nos adultos, pela presença de um fungo conhecido como Pityrosporum ovale – e predominantemente pela Candica albicans nos bebês.

Não é uma doença contagiosa e não oferece grandes riscos – assim como não está relacionada a falta de cuidados higiênicos, ao contrário do que muitos pensam. Os sintomas envolvem oleosidade na pele e no couro cabeludo, escamas brancas que descamam, caspa e escamas amareladas (que ardem e são oleosas). A área afetada sofre leve vermelhidão. A coceira pode ser severa e coçar piora o quadro.

Outras características são a possibilidade de perda de cabelo e, embora o diagnóstico seja clínico, pode levar o dermatologista a recorrer a exames laboratoriais – como biópsia, teste de contato e o exame micológico (que pesquisa a presença de fungos na pele).

O tratamento precoce é de grande importância e, aí sim, envolve cuidados especiais de higiene, além do uso de xampu adequado ao tipo de pele. A prescrição médica dependerá da localização das lesões e da intensidade dos sintomas.

Hábitos de vida entram nesse cenário, com ênfase na má alimentação (muito por conta de alimentos gordurosos), tabagismo e uso de produtos não apropriados para esse tipo de pele. Vale atenção ao estresse emocional (um dos principais fatores reguladores desse tipo de dermatite), ao uso de tecidos sintéticos e/ou que retenham o suor, assim como banhos muito quentes.

Caspa

O distúrbio se dá quando o fungo Pityrosporum ovale se prolifera excessivamente (tanto no couro cabeludo quanto no canal piloso, onde fica a raiz do cabelo), desencadeando uma inflamação no local e iniciando todo o processo.

As duas principais formas do problema apontadas pela dermatologia são a pitiríase esteatóide ou capitis, situação na qual a descamação é fina e difusa, não adere ao couro cabeludo, apresenta poucos sinais inflamatórios e aparece mais em adultos; e a crosta láctea (caspa oleosa), presente mais em crianças, e com escamas gordurosas e amareladas, que se grudam aos fios e ao couro cabeludo. A resposta inflamatória nesse caso é intensa, às vezes causando a chamada adenomegalia local, um aumento nos gânglios linfáticos.

Alopecia

Como dito antes, esse termo dá conta de uma gama de distúrbios que levam à queda de cabelo. As alopecias podem ser classificadas entre congênitas ou adquiridas, difusas ou localizadas, cicatriciais ou não-cicatriciais, e dividem-se basicamente entre:

Alopecia androgenética – o padrão masculino de calvície, afetando cerca da metade dos homens em torno dos 50 anos. Geralmente começa na fase dos 27 aos 29 anos – com grande parte dos homens já apresentando algum grau de calvície ao final dos 30. As características são hereditárias, e a causa pode estar ligada a certos hormônios masculinos e a folículos capilares extremamente sensíveis.

Alopecia areata – é aquela que leva a “clareiras” arredondadas de calvície do tamanho aproximado de uma moeda grande – geralmente no couro cabeludo e na barba, mas possível também em outras regiões do corpo. Acontece em qualquer idade, mas na maioria das vezes afeta adolescentes e adultos jovens – na faixa entre os 15 e os 29 anos.

Alopecia cicatricial – esse tipo é geralmente causado por complicações decorrentes de outras condições de saúde. O folículo capilar (buraquinho diminuto na pele de onde o cabelo cresce) é completamente destruído com o tempo. O que significa que o cabelo não crescerá novamente.

Eflúvio anágeno – perda de cabelo generalizada e que pode afetar cabeça, face e corpo. Deve-se sempre a um fator externo e uma das causas mais comuns é o tratamento de câncer por quimioterapia. Outras causas podem ser infecções, febre, radioterapia e cirurgias prolongadas.

Eflúvio telógeno – começa com o afinamento do cabelo (no lugar das “clareiras” de calvície). O cabelo cai em mechas, não afetando outros pelos do corpo. A maioria das causas está relacionada a reações do corpo, como alterações hormonais (como as ocorridas durante a gravidez), estresse emocional intenso, estresse físico intenso (parto, entre eles), um breve problema de saúde (a exemplo de uma severa infecção ou uma cirurgia), uma condição prolongada (caso do câncer ou doença do fígado), mudanças bruscas na dieta alimentar (regimes de emagrecimento, deficiências proteicas, de ferro ou de zinco) e algumas medicações (anticoagulantes ou beta bloqueadores).

Câncer de pele no couro cabeludo

O câncer de pele mostra-se como o mais comum entre os 100 tipos da doença, representando mais da metade dos diagnósticos. Segundo informa o portal da Sociedade Brasileira de Dermatologia, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) registrou 181.430 novos casos no Brasil em 2016.

Dentro disso, o que acomete o couro cabeludo é a manifestação mais perigosa desse tipo de doença. Uma lesão cancerígena nessa área pode atrasar o diagnóstico e o tratamento. E esse atraso aumenta o risco de metástase para o cérebro.

Há dois tipos básicos de câncer de pele: os não-melanoma, que geralmente afetam as chamadas células basais – de onde se originam os queratinócitos (também chamados de “células escamosas”, responsáveis pela produção de queratina e pela impermeabilização da pele) – e os melanomas, um dos cânceres mais malignos que existem, extremamente invasivo, e cuja origem se dá nos melanócitos (células produtoras de melanina).

Tratamentos

Com exceção das lesões cancerígenas, os demais problemas que afetam a saúde do couro cabeludo podem ser facilmente percebidos no dia a dia dos cuidados com o cabelo – no banho, ao pentear-se etc. E a ideia é mesmo examinar regularmente a cabeça – na frente do espelho e de preferência com luz natural, para verificar alguma mudança.

Mas adquirir esse hábito de observar-se com mais atenção não exclui a importância de ter sempre um médico dermatologista por perto. Ele é o profissional que pode verificar se tudo corre bem tanto com o couro cabeludo quanto com a pele de todas as regiões do corpo.

No que toca a tratamentos, os problemas, como a calvície padrão de homens e mulheres, não precisam necessariamente de tratamento clínico – até porque, em parte, o que incide é o processo natural de envelhecimento. Tudo isso equivale a dizer não há riscos à saúde.

No entanto, são distúrbios estressantes e esteticamente desconfortáveis. Por isso vale a regra de procurar seu médico dermatologista para que os quadros sejam encaminhados da maneira adequada. Ele fará um exame clínico do cabelo – por vezes com o uso de um dermatoscópio – e levantará o histórico clínico do paciente. Exames laboratoriais não estão descartados, já que é sempre preciso garantir que não se trata de um problema de saúde mais sério provocando a queda de cabelos.

Um dos procedimentos mais comuns é a injeção de corticoides, feita com agulhas bem finas e pequenas, aplicadas diretamente na pele, no local afetado – uma vez por mês ou a cada 15 dias, dependendo da afecção e indicação. Cremes e loções à base da mesma substância também podem ser utilizados em casa, sob prescrição do médico.

Um complemento, dependendo do caso, é a entrada com componentes tópicos e sistêmicos. No geral, prescritos para uso contínuo por alguns meses, como manutenção ao procedimento feito no consultório – onde também é possível recorrer ao laser fracionado não ablativo ou o microagulhamento. Nesses casos, o tratamento combinado ao drug delivery (entrega de substâncias estimuladoras dos folículos imediatamente), impulsiona e estimula com mais rapidez o crescimento e a saúde dos cabelos.

Para ficar de olho

Ainda quando se fala em prevenir esses problemas, alguns hábitos simples podem fazer a diferença. Higienizar corretamente escovas e pentes – principalmente se forem compartilhados – é imprescindível para garantir a saúde do couro cabeludo (e consequentemente dos cabelos). Reunimos algumas dicas que valem a penas serem adotadas em casa – e bem observada (e cobradas, se for o caso) nos salões de cabeleireiros e barbearias.

Os devidos cuidados com escovas de cabelo não apenas visam à higiene, mas também a uma vida útil maior do produto. Arrancar de uma vez os fios presos em escovas não garantem uma limpeza completa e ainda podem amolecer e/ou danificar as cerdas. O ideal é retirar os fios presos com o cabo do pente após cada escovação.

A lavagem também pede cuidado (para não danificar as cerdas). O trio sabão neutro, água corrente e esponja garantem uma boa limpeza. Se a sujeira estiver impregnada, coloque a escova de molho por 30 minutos, enxágue e deixe secar naturalmente. E importante: evita usar o secador ou uma estufa, o que compromete a qualidade e a função do produto.

Escovas com base de madeira podem ser lavadas por inteiro, a matéria-prima recebe (ou deveria receber) tratamento próprio para suportar a umidade. Já as de base metálica devem ser enxugadas com um pano limpo para evitar oxidação. No caso do plástico, para não perder a cor ou função, a higienização pede um pano úmido e sabão neutro.

O que “pega” nos salões

Locais públicos, como salões e barbearias, precisam intensificar os cuidados com higiene e a conservação dos equipamentos – e isso inclui escovas e pentes.

É possível, sim, contrair doenças do couro cabeludo por meio de escovas. O compartilhamento do objeto contaminado pode, por exemplo, levar a uma infecção fúngica, como a micose, ou a dermatite seborreica – além de ambientes úmidos e quentes serem “ideais” para a proliferação desse tipo de organismo.

O mesmo vale para os piolhos. Esses parasitas são facilmente transmitidos tanto pelo contato, quando pelo compartilhamento de vestimentas (como capas utilizadas na hora de cortar o cabelo) e objetos tais quais pentes, escovas e toucas.